A HORA DE VIRAR O JOGO

Por Elizabeth Guastini*

Cuidar de vidas ao custo da própria saúde não é dedicação; é exploração. Essa é a dura realidade que a Enfermagem do Estado do Rio de Janeiro enfrenta diariamente nos corredores de hospitais públicos, maternidades, UPAs, clínicas da família e redes privadas. Cruzamos as portas dos plantões sabendo que nossa missão é vital. Mas, saímos deles exaustos, invisibilizados e, muitas vezes, adoecidos.

O cenário atual da nossa profissão é alarmante. Enfrentamos jornadas de trabalho longas e profundamente injustas, que anulam nossa vida pessoal e transformam o descanso em um luxo distante. Os plantões exaustivos tornaram-se a regra, alimentados por uma crônica sobrecarga de trabalho devido ao déficit de profissionais nas escalas. O resultado dessa conta que não fecha está nos consultórios de psicologia e psiquiatria: um apagão mental e físico, com índices alarmantes de Burnout , depressão e adoecimento generalizado da nossa categoria.

Para piorar, a precarização do trabalho avança a passos largos. Contratos temporários abusivos, terceirizações desenfreadas através de Organizações Sociais (OSs) e a terrível ausência de proteção no ambiente de trabalho nos deixam vulneráveis não apenas ao desemprego, mas à violência física e psicológica e à falta de insumos básicos para exercer a profissão com segurança.

Diante desse sufoco, surge a pergunta: como virar o jogo?

Existe um projeto em curso que tenta enfraquecer quem nos defende. O enfraquecimento dos sindicatos e o discurso que estimula a baixa sindicalização não acontecem por acaso. Interessa aos patrões e aos maus gestores que o enfermeiro lute sozinho, isolado em seu plantão, com medo de retaliações. Quando a categoria se afasta do seu sindicato, quem ganha é a precarização.

Nenhum direito foi conquistado pelo silêncio. O piso salarial, as 30 horas, o descanso digno — cada passo dado foi fruto de barulho, de greve, de negociação firme. E nada disso se sustenta sem um sindicato forte. Este editorial é um chamado à reflexão, mas, acima de tudo, à ação. O Sindicato dos Enfermeiros do Rio de Janeiro (SindEnfRJ) não é uma parede de concreto ou uma diretoria isolada. O sindicato é cada um de nós que veste o jaleco e vai para a linha de frente.

Precisamos resgatar a nossa força coletiva. Sindicalizar-se não é apenas pagar uma contribuição. É assinar o manifesto de que você não aceita mais ser explorado. É garantir assessoria jurídica quando o hospital cometer um abuso. É ter voz ativa nas assembleias que decidem o nosso futuro.

Colega enfermeiro, se a rotina está sufocante, não sofra calado. Abrace quem luta por você. Abrace o seu sindicato.

*Presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Rio de Janeiro